terça-feira, 17 de abril de 2018

Fotos da Prova Concelhia do Concurso Nacional de Leitura de 2018

https://speakerdeck.com/bibliocre/prova-concelhia-do-porto-de-concurso-nacional-de-leitura


Poema da Semana de 16 a 20 de abril


À Boca do Cântaro

Caminha sílaba a sílaba
como a fonte
que só pára à boca do cântaro.

Aí consente partilhar a água.
À audácia dos jovens, à timidez
dos que já o não são, mata a sede.
Aos que tropeçam na falta
de amor, aos que mordem as lágrimas
em segredo, dá a beber.

Leva aos lábios febris
a frescura da pedra. Não deixes
o medo multiplicar as garras.
Sílaba a sílaba
caminha até ao cântaro
vazio. – Tão cheio agora!

Eugénio de Andrade, in Os sulcos da sede

quinta-feira, 12 de abril de 2018

Poema da semana de 9 a 13 de abril
















São herança camponesa, as mãos.

Estas pequenas mãos, de geração

em geração, vêm de muito longe:

amassaram a cal, abriram sulcos

frementes na terra negra, semearam

e colheram, ordenharam cabras,

pegaram em forquilhas para limpar

currais: de sol a sol nenhum

trabalho lhes foi alheio.

Agora são assim: frágeis, delicadas,

nascidas para dar corpo a sons

que, noutras épocas, outras mãos

se obstinaram em escrever como

se escrevessem a própria vida.

Ao vê-las, ninguém diria que

a terra corria no seu sangue.

São mãos envelhecidas, mas no teclado

são capazes do inacreditável: juntar

nos mesmos compassos o rumor

dos bosques em setembro e os risos

infantis a caminho do mar.


Eugénio de Andrade, In Os Sulcos da Sede (2001)